20/04/2007 ..

Sonhos...nem que sejam os da padaria!



Sonho de padaria! Adoro! Na padaria Rio Lisboa tem um ótimo, mas o do Talho Capixaba não fica atrás! O da Rio Lisboa é frito, como manda o figurino. O do Talho é assado, como manda o mundo moderno! Os dois são ótimos para uma manhã de domingo ou para um fim de tarde, com cafezinho coado em coador de pano. Não gosto de invencionices no campo da tradição, mas outro dia me permiti experimentar o sonho de chocolate do Talho. Bingo, direto na veia, um sonho!

Também experimentei um espetacular em São Paulo. Cheguei à Sampa às 11h e tinha um almoço de negócios às 13h. Então, tinha muito tempo para comer antes do almoço! Me mandei para a Hadock Lobo para comer o melhor pão de queijo de Sampa. Fica em frente ao restaurante Arábia, outro oásis de qualidade na terra da garoa. Depois fui levada até essa doceria – adoro esse nome! – tradicional de Sampa, que não me lembro o nome, mas era um sonho! O de lá tinha a textura aerada, leve, mas intenso ao mesmo tempo. Acredito que seja do time do Talho, pareceu assado ao invés de frito. Creme macio, sem muito açúcar, vibrante! Trouxe um farnel para casa! Sou assim, não consigo experimentar alguma coisa em viagem, sem trazer para casa! É como sonhar o absurdo de que temos o poder de perpetuar as sensações...

Falando ainda em sonhos, sejam eles de padaria ou planos, como bem colocou o nosso poeta MauroN, acho que esse assunto é inesgotável. É como o “quase perfeito” na minha cozinha. Esse é o maior elogio que alguém vai ouvir de mim, simplesmente pelo fato de que, se estiver perfeito, vamos nos dar ao luxo de estagnar! E isso nunca!

Deixar de sonhar eu também me recuso. Viver sem o sonho seria como decretar o fim. Melhor deixar isso para os filmes! Na vida vou continuar comendo os sonhos da padaria e me movendo por aqueles que me dão frio na barriga!

Bons sonhos!

Até!



19/04/2007 ..

Sonhos...de vida...e de consumo!





Tinha me programado para sentar calmamente no meu escritório, após terminar de servir almoço no restaurante, e escrever sobre sonhos. Sonhos são seres estranhos. Digo seres, porque, na minha opinião, quando eles se materializam, passam a existir, sejam eles bons ou não! Então... Bem-vindo aos sonhos! Ou aos pesadelos!



Hoje na cozinha foi um daqueles dias! Almoço aparentemente tranqüilo. Adoro os almoços no outono, a luz que invade a nossa cozinha é tão intensa e ao mesmo tempo tão delicada. O clima é tão propício para se entregar aos sonhos gastronômicos, tomar um bom vinho, esquecer da vida numa quinta-feira à tarde. Estamos aqui para isso!



Até então tudo caminhando bucolicamente como descrito. Micos passeando pelos fios de eletricidade da rua, o meu vizinho mais adorável, um buldogue inglês chamado Romeu, passando para me dar um alô. Um cliente sentado sozinho comemorando o seu aniversário, lindo! Um sonho.



Até que resolvo ir até a cozinha e encontro a porta fechada. Pensei: estranho. Pensei outra vez: bato? Não! Entro! Eu sou a Chef, ora!



Entrei! Bad choice!



Uma fumaça intensa e assustadora, mas ao mesmo tempo deliciosamente perfumada de alecrim, tinha tomado conta da minha cozinha. Dei um passo para trás e perguntei: o que está acontecendo? Essa é a pior hora que um chef pode escolher para fazer esse tipo de pergunta! Mas a gente sempre faz!



No meio da fumaça consegui avistar o grande Lucas com um objeto vermelho imenso nas mãos: era o extintor de incêndio sendo desvirginado! O charbroiller tinha pegado fogo!



Pesadelo!



Mas não dos grandes. Depois de alguns minutos, tudo tinha sido resolvido. A única coisa que mudou foi o rumo da vida dos nossos clientes, que foram induzidos a comer o pato assado com nossa compota de frutas secas, no lugar do carrézinho de cordeiro com alecrim. De resto, só um cheirinho de defumado que vai levar uns três dias para me deixar! Ainda bem que não estou em inicio de namoro!



E os sonhos?



Bom, o de consumo, depois dessa, é um charbroiller novo!



E o de vida? Continuar vivendo na cozinha, incendiada ou não!



Até!



18/04/2007 ..

Cozinha...seja lá qual for a sua



Tudo bem, a cozinha viva não agradou muito, tanto que ninguém prestou atenção à coincidência de se chamar: viva! Enfim, não é o que importa. O importante é que deu o que fala aquela velha história do pessoal que não gosta, mas vive por aqui! Adoro quando entro nos comentários – escondida como o pessoal do contra ou como os tímidos assíduos da janelinha – e espio as discussões sobre o tema proposto. É tão democrático! É cozinha.

Você pode, e deve, gostar e desgostar do que quiser. Pode, ou não, estar disposto a experimentar. Pode, ou não, querer viver alguma louca aventura gastronômica, do tipo: comer gafanhotos! Quem provou diz que é bom, mas eu me pergunto: será que estamos perdendo alguma coisa? Será que encontraremos por lá o tal quinto sabor?

Seja lá qual for a sua opção, a cozinha é livre, por isso é tão fascinante ser cozinheiro. Ter a liberdade de se trabalhar e tirar o melhor proveito de coisas as vezes banais para os outros como: abóbora, chuchu, quiabo e beterraba! Esse é o meu barato, mas pode não ser o seu, ótimo! Isso é o que faz da gastronomia o termômetro de qualquer cultura.

A gastronomia é uma das expressões mais transparentes de um povo. O que para nós pode ser absolutamente corriqueiro e delicioso, para outros pode ser indigesto. Essa liberdade de expressão e de decisão é que torna a discussão interessante. Gostar, não gostar, comer, não comer, experimentar ou não! Faça como achar melhor, só não deixe de ser feliz!

Ser feliz, esse é o propósito da gastronomia, esteja você dentro ou fora da cozinha. O melhor conselho para quem está começando? Vivem me pedindo isso! É simples: ser feliz.

Ser feliz quando sai para jantar naquele restaurante que você sonhou experimentar. Ser feliz, quando o dinheiro para ir naquele restaurante está curto, a opção mais sensata é o boteco da esquina! Ser feliz comprando pão quente na padaria da esquina, ser feliz preparando o café que irá acompanhar o pão, rápido, senão ele esfria! Ser feliz na cozinha às 2h da manhã quando as pernas não te obedecem mais. Ser feliz quando tudo dá errado e colocar o boeing no nível de cruzeiro parece impossível! Ser feliz quando não agüenta mais ouvir essa palavra: Chef! Chef! Chef! Apesar dela te fazer tão feliz!

Aí me perguntam: mas você é sempre feliz? Claro que não.

Mas o barato de quem vive essa profissão por inteiro é a capacidade que desenvolvemos de estar felizes na cozinha, mesmo quando não se está feliz fora dela.

Aconteceu ontem e eu sobrevivi.

Até!
17/04/2007 ..

Cozinha...Viva!



Eu já tinha ouvido falar em cozinha viva, mas confesso que não me interessei. Talvez por causa daquela celeuma criada nos Estados Unidos em torno da Madonna e do raw food. Mas outro dia quem me falou sobre a cozinha viva foi o meu amigo Ed Motta, que é daquele tipo de pessoa que, quando se interessa por alguma coisa, vai fundo até entender absolutamente tudo! Como também me encaixo nesse time, resolvi investigar!

Tenho repetido muito isso aqui: a vida precisa de parâmetros. Ou seja, para se torcer o nariz é preciso ter experimentado. Não se pode, num mundo tão cheio de informação e opção, simplesmente colocar de lado certas coisas sem ao menos tentar. Vai que a gente gosta? Acontece.

Enfim, vivo em função disso: fazer com que as pessoas deixem de lado certos preconceitos e experimentem, por exemplo, quiabos, chuchus, abóboras, brotos e ervas! Tudo isso junto, e cru, já daria samba, pensa bem?

O princípio da cozinha viva ou do raw food, é a cozinha da terra. Na cozinha viva não se cozinha nada, muito pelo contrário, se tenta extrair de cada elemento exatamente da maneira com que brota da terra, o seu mais puro sabor. Ou seja, a essência vital e enzimática de cada ingrediente é preservada acima de qualquer coisa. O respeito absoluto ao sabor íntegro de cada ingrediente acima de qualquer suspeita.

O interessante, do ponto de vista dos que acreditam profundamente nesse tipo de alimentação, é que, mesmo com a falta do forno ou do fogão, não significa necessariamente que o ingrediente esteja, literalmente cru.

Difícil de entender?

Pense naquele tomate do qual falamos na semana passada. Aquele que, se banhado pelo sol da Toscana, simplesmente se torna uma das iguarias mais saborosas que eu conheço. É isso, no princípio, na filosofia da cozinha viva, o chef é o sol!

Nesse ponto, algo que a princípio parecia sem graça, sem gosto, sem emoção, começa a me empolgar. Na filosofia deles o sol é o grande chef. É ele quem determina o ponto de cozimento, entregando ao homem os ingredientes devidamente maduros. Não deixa de ser instigante e até romântico, se me permitem.

Viva!

Até!
16/04/2007 ..

O vício do blog...




Escrever aqui se tornou um vício, um hobby, um sonho de consumo. Tudo o que acontece no meu dia-a-dia pode se transformar num post. Isso é fantástico! Instigante, como buscar a nova dimensão do quiabo, da abóbora, do chuchu!

Outro dia fui sondada para uma matéria sobre o que os chefs fazem quando não estão na cozinha. Uma amiga queridíssima que muito me conhece, e que estava ajudando a escrever a matéria, comentou com o marido: "acho que a Roberta não se encaixa nessa matéria, afinal o que ela faz além de passar a vida enfurnada na cozinha?". Essa mesma amiga um dia me disse: "você não sai, não se diverte, não mata aula! Está todos os dias trancada na cozinha, vai acabar perdendo os amigos!".

Perdi a matéria, de maneira alguma o divertimento e os amigos, que pouco a pouco foram chegando de todas as partes do mundo e transformando esse humilde espaço numa imensa cozinha! Além de estar na cozinha todos os dias da minha vida, o que aliás muito me diverte, tenho descoberto um mundo de possibilidades através desse espaço. Saber a quantidade de pessoas que nos "assiste" todos os dias foi assustador. Saber que alguns que nos lêem também não vão com a nossa cara foi fantástico!

Fiquei surpresa ao entrar no blog de um "bam bam bam" do jornalismo outro dia - diga-se de passagem para fazer um elogio à coluna dele que eu adoro - e dar de cara com várias citações a meu respeito, nenhuma delas boas e nem respeitosas. Mas o que importa não é isso, afinal a liberdade de expressão, e de compreensão, existe, e isso sim é importante. O que é interessante é que mesmo quem não gosta - ou não entende? - se dá ao trabalho de ler todos os dias! Isso é fantástico, isso é fascinante! Isso é cozinha!

Pela primeira vez na vida morri de rir com uma critica! Achei fantástica a sensação, não que crítica seja coisa confortável, seria hipocrisia dizer que sim. Sempre mexe, sempre remexe, sempre incomoda. E para ser absolutamente sincera, ninguém gosta! Mas é aquela velha história, quando você está seguro do que faz, quando está confortável e feliz com o que faz, a crítica tem que ser muito inteligente para te atingir! É como servir, assunto que discutimos no último post: só se serve bem quando se tem noção do espaço que se ocupa, quando se tem certeza de que aquele espaço nos pertence. Aí sim podemos nos entregar de corpo e alma, podemos nos esforçar mais do que o razoável para atingir a emoção de quem estamos a serviço. Ou como provar glutamato monossódico, todos se recusaram, mas até para decidir que não se gosta tem que se provar!

Mais ou menos como comer pela primeira vez alguma coisa que você cismou que não gosta, quiabo, por exemplo, e por uma junção de fatores - até a posição dos planetas podem influenciar nessa hora - passar a gostar! Acontece.

A vida precisa de parâmetros e de mais blogs bons! A propósito, continuo gostando da coluna dele, mas infelizmente não pude declarar isso, porque lá não há espaço para as discussões, nem para elogios, quanto mais para críticas. Fácil assim.



Até!

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